Há esperança em meio à pandemia?

O setor de eventos e toda a cadeia produtiva relacionada a esse ramo de atividades passaram o ano de 2020 se “reinventando”.

Eventos, feiras e congressos presenciais agendados para 2020 foram, em muitos casos, cancelados ou adiados. Entre os eventos adiados, muitos foram reagendados para datas futuras. Essas expectativas de realização dos eventos adiados para datas posteriores, no entanto, na maioria dos casos, foram frustradas. Tais ocorrências causaram grande desconforto no relacionamento entre fornecedor e cliente, além de insegurança para o investidor e dificuldade de planejamento para os profissionais do ramo.

Essa realidade, porém, passou a ser enfrentada a partir da disseminação dos eventos digitais, que podem acontecer de forma totalmente digital ou até de maneira híbrida, casos em que a participação presencial se mescla às atividades online. Eventos digitais ou híbridos já se apresentavam como alternativa a um encontro presencial antes de março de 2020.

O formato digital em um evento, porém, era pouco utilizado e visava a contenção de custos. Atualmente, devido à nova situação sanitária global, eventos digitais tornaram-se a única forma possível de viabilizar eventos médico científicos, corporativos, de incentivo, promocionais, religiosos, entre outros.

Mas, eventos digitais e/ou híbridos suprem as necessidades de clientes, patrocinadores, compradores e vendedores? Satisfazem a necessidade do congressista que deseja participar do evento e fazer networking? Creio que não, “mas é o que temos para hoje”, diriam os mais jovens.

Devido a esses fatores, defendo, a realização presencial de quaisquer tipos de eventos: médico-científicos, corporativos em geral, feiras e congressos. Podemos sim realizar eventos como esses! E essa efetivação é possível independentemente da cor da fase em que a cidade se encontra: laranja, amarela, verde e até vermelha, de acordo com o Plano São Paulo. Para isso, basta seguir os protocolos sanitários aprovados!

Um evento pressupõe pessoas interagindo com o evento em si, seus expositores, seus pares, clientes e prospects. Em um evento presencial, as trocas de conhecimento, informações e realizações no campo dos negócios são mais eficazes e garantem maior retorno. Eventos digitais e/ou híbridos são bem-vindos e terão sempre seu espaço e público de preferência, que engloba pessoas que participam e obtêm o resultado que desejam, mas não se deve substituir um pelo outro.

Isto posto, é preciso que os eventos presenciais voltem a ser produzidos e aconteçam de forma segura. E essa é uma possibilidade viável e já comprovada em dois grandes eventos de segmentos diferentes, ocorridos no fim de 2020: a Expo Retomada, realizada no espaço Expo São Paulo, e o 23º Congresso de Oftalmologia da USP, realizado no Centro de Convenções Rebouças.

Esses dois eventos aconteceram com público flutuante mediante controle de frequência e acesso, circulação dos participantes pelos corredores em sentido obrigatório, estandes com distância controlada entre eles, distanciamento social dentro dos estandes e entre os participantes, medição de temperatura na entrada, utilização de crachá totalmente digital, uso de máscara e álcool em gel, entre outras medidas.

Após a realização desses eventos, não se tem notícia de que algum participante e/ou profissional envolvido em sua organização tenha sido infectado nesses encontros. Mas, enquanto essa forma segura de realização de eventos não se torna parte de nosso dia a dia, o que pode ser feito para que as empresas que vivem, respiram e produzem eventos e seus fornecedores, parceiros e colaboradores sobrevivam? A palavra resiliência está em “alta”, muitos a utilizam para designar pessoas que mesmo em meio a inúmeras adversidades, permanecem focadas para alcançar seu propósito ou objetivo traçado.

Pois bem, creio que além de sermos resilientes temos de ter propósitos alinhados com os cenários atual e previsto, mesmo que esses cenários sejam, de certa forma, difíceis de serem visualizados. Para rascunhar essa visualização, dados científicos e tendências do setor devem ser a base da nossa perspectiva.

É possível prever cenários diversos e nos basear neles para traçar nossos propósitos e objetivos a curto, médio e longo prazo. Pode-se também atuar como um cooperador para o crescimento ou retomada do setor de eventos, feiras e congressos. Para isso, é necessário pensar em cooperação. Cooperação de todos rumo ao bem maior. Pensar de forma isolada e agir sozinho não será de grande valia, além de surtir pouco ou nenhum efeito. Algumas ações de apoio e cooperação dependem do Poder público, outras não. Muitas ações dependem somente de nós, empresários, funcionários, colaboradores, freelances, trabalhadores do setor de eventos. Seguem algumas ações de cooperação que ajudarão e já ajudam nosso setor a se manter em pé:

  • A vacina já nos dá flexibilização para os eventos presenciais da área da saúde, que configuram parcela significativa dos eventos técnico-científicos. Os protocolos sanitários sob total biossegurança, garantida através de tecnologia avançada, já existem e foram elaborados por várias associações ligadas a eventos, dentre elas a Associação Brasileira de Empresas de Eventos (ABEOC-SP). O uso de tecnologias sem toque, além de muitas ações complementares já descritas em protocolos existentes, é fundamental. Já há a intenção de 67% dos brasileiros, de acordo com estudo apresentado pela empresa de pesquisa Hibou, de voltar a frequentar eventos.

Trabalhar em conjunto com o Poder público e autoridades da área da saúde para que eventos, feiras e congressos se constituam como reuniões seguras no que tange às condições sanitárias irá gerar o necessário aumento da confiança no público frequentador de eventos com exposições e presenciais. É necessário dar visibilidade ao trabalho competente e qualificado apresentado na organização da Expo Retomada. Foi um trabalho realizado com maestria! É fundamental, portanto, ter um plano de comunicação direcionado para o público e para os clientes para que se tornem evidentes a perícia e a expertise que o setor de eventos já domina ao promover encontros com base nos protocolos sanitários que regem nossas condições atuais de proteção. Ou seja, se seguirmos os protocolos sanitários vigentes tudo é possível!!

  • Aprimorar as soluções que de forma gradual ajudarão empresários e trabalhadores do setor de eventos a melhorar performances de biossegurança e assim garantir tranquilidade aos interessados. É urgente ter o cuidado de passar a imagem para todo o país de que eventos são seguros. É fundamental definir estratégias de promoção desse olhar mais focado na retomada segura. Uma boa solução é a implementação do Selo de Turismo Responsável. Outra ideia é o Selo de Evento Seguro, a ser desenvolvido e auditado por instituto ou associação do ramo.
  • Organizar uma ação em conjunto com associações e entidades do trade de eventos, feiras e congressos para, em um fórum único, de maneira a planejar ações na reconstrução do setor, fazendo com que o resultado seja pautado em sustentabilidade econômica, meio ambiente, social e cultural. Alcançado esse resultado, certamente haverá um setor de eventos, feiras e congressos melhor, mais resiliente e protegido contra mudanças econômicas e sanitárias.
  • Levar o público a entender que eventos corporativos médico-científicos, feiras e congressos não são aglomerações, não são festas clandestinas, não são ajuntamento sem biossegurança e sim reuniões realizadas e produzidas por profissionais responsáveis e empresas regularizadas que geram empregos diretos e indiretos, promovem renda de forma sustentável e o pagamento de impostos que giram e fomentam a economia local e nacional! Sim! Há esperança em meio à pandemia! Vivemos um período no qual podem ser criados laços fortes de mútua cooperação, ajuda ao mais vulnerável, reflexão e revisão de valores e processos, sustentabilidade e muitas novas oportunidades! Tudo depende da cooperação entre todos! Que possamos projetar a esperança para todos do trade de eventos e sua enorme cadeia produtiva.

 

*Auro Nardelli Wandermüren é vice-presidente da ABEOC Brasil São Paulo, Vice Presidente da ABLOVEX e Membro do SKAL São Paulo.

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